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Renovada a confiança no mercado doméstico

08.01.2018

Após quase três anos deprimido pela mais grave recessão econômica da história do Brasil, o mercado doméstico voltará a sorrir para o campo em 2018. A retomada do crescimento já começou a ter reflexos positivos sobre o consumo de produtos de maior valor agregado, como carnes, e a expectativa é que essa tendência se consolide e devolva às vendas internas a importância que tiveram para o avanço do agronegócio nacional da segunda metade da década passada até 2014.



No estudo "Perspectivas para o agronegócio brasileiro - 2018", assinado pelos analistas Adolfo Fontes, Andres Padilla, Andy Duff, Fernando Gomes, Guilheme Morya, Matheus Almeida, Maurício Oreng, Renato Rasmussen (hoje na FCStone) e
Victo Ikeda, o banco holandês Rabobank apresenta dados e projeções que, entre outros aspectos, confirmam esse cenário. E mostram que esse maior otimismo em relação à demanda interna não se restringe às carnes e, consequentemente aos grãos, básicos para a fabricação de rações. Produtores de etanol, café, algodão e leite, além de companhias de insumos, também têm motivos para renovar suas apostas no Brasil.

"É claro que há muita incerteza, mas a atividade econômica está reagindo de forma positiva no país", diz Mauricio Oreng, que é o economista-chefe do Rabobank no país. No estudo, a instituição destaca que "um cenário político e eleitoral que indique a continuidade de uma política econômica sólida, com foco na responsabilidade fiscal e em reformas estruturais, poderá contribuir para uma recuperação mais rápida". E ressalva que a postergação da reforma da Previdência para depois das eleições poderá adiar a retomada dos investimentos e, claro, prejudicar a conjuntura como um todo.

Poucas cadeias produtivas esperam tanto por uma maré mais favorável quanto a de proteínas animais. Além da retração do consumo doméstico, marcante entre 2015 e o começo do terceiro trimestre de 2017, o segmento sofreu no ano passado com a Operação Carne Fraca e a delação dos irmãos Batista, controladores da gigante JBS, mas o horizonte agora é promissor. "A cadeia de proteína animal reage muito rapidamente à economia, e são positivas as projeções para o consumo interno em 2018", afirma Adolfo Fontes.

Nos cálculos do analista, se nada atrapalhar demais a retomada da economia o potencial de recuperação do consumo de carne bovina no país é de 4 quilos per capita nos próximos dois anos. Como para as exportações Fontes projeta volatilidade elevada em um ambiente de riscos de restrições no mercado internacional, a confirmação dessa tendência será ainda mais importante para os frigoríficos. Para as carnes de frango e suína, as previsões também apontam um mercado doméstico mais pujante.

Essa pujança, realça Victor Ikeda, será fundamental para enxugar um pouco os fartos estoques de milho depois da colheita recorde do ano passado - o grão é o principal componente das rações de aves e suínos - e terá reflexos positivos também no mercado de soja. Mas, ainda assim, a oferta desses que são os principais grãos cultivados no país seguirá ampla, uma vez que a safra 2017/18 tende a ser também robusta, e, para absorvê-la, será preciso que as perspectivas de aquecimento da demanda no exterior em consequência da aceleração do crescimento econômico mundial se confirmem.

Levando em consideração que esse horizonte de fato prevaleça, Matheus Almeida prevê que a área plantada de soja, sobretudo - e com a ajuda do aumento da mistura de biodiesel no diesel -, continuará a aumentar na temporada que começará a ser semeada no terceiro trimestre e puxará a demanda por insumos como fertilizantes e defensivos. Para os defensivos, a tendência poderá acelerar a redução de estoques, que permaneceram em patamares particularmente altos em 2017 e prejudicaram os resultados das companhias do ramo.

Mas não é apenas a cadeia formada por grãos e carnes que deverá encontrar no mercado doméstico uma fonte de melhores negócios neste ano. No segmento sucroalcooleiro, pontua análise de Andy Duff, também estão depositadas no país as
melhores expectativas. Em tempos de pouca esperança de recuperação dos preços internacionais do açúcar, são os incentivos do ano passado às vendas de etanol que animam os usineiros, que ganharam na aprovação do programa RenovaBio, já no fim de dezembro, um novo fator de estímulo.

Guilherme Morya concorda que o crescimento da economia brasileira é igualmente bem-vindo no mercado de café, cujo consumo resistiu no país mesmo durante a recessão, e Andrés Padilla observa que a retomada é muito aguardada no segmento de lácteos, onde o consumo de itens de maior valor agregado não teve a mesma sorte e registrou quedas. Agora, os sinais sugerem que haverá recuperação.